CORAÇÕES EM SUSPENDO - Histórias de amor ao estilo vintage com temas contemporaries.


Corações em Suspenso












Capítulo 1 – O reencontro



Clara ajeitou o casaco enquanto caminhava depressa pela Rua da Sofia. O dia estava frio, e uma chuva fina transformava as pedras antigas em espelhos irregulares. Sentia-se cansada, mas não tinha alternativa: a vida dela era feita de prazos, campanhas publicitárias e clientes ansiosos por números.


Todos a viam como uma profissional bem-sucedida. Afinal, sabia transformar qualquer produto em “tendência” e multiplicar seguidores em poucas horas. Mas, no fundo, quando desligava o portátil, restava apenas o silêncio do seu pequeno apartamento.


— Mais um dia e nada muda… — murmurou para si, suspirando.


Decidiu entrar num café acolhedor, numa esquina discreta. Pediu um cappuccino e, quase por hábito, pegou no telemóvel. O ecrã iluminou-lhe o rosto: notificações, mensagens, curtidas. Um mundo inteiro de vozes digitais, mas nenhuma presença real.


Foi então que ouviu uma voz conhecida.


— Clara? És mesmo tu?


Ela levantou os olhos e, por um instante, pensou que estava a sonhar. Diante dela, com o mesmo sorriso tímido dos tempos de universidade, estava Miguel.


Ele usava um casaco escuro, o cabelo um pouco despenteado pela chuva, e trazia nos olhos um cansaço profundo… mas também uma luz serena, quase familiar.


— Miguel… não acredito! Quantos anos já passaram?


Ele riu-se, passando a mão pelos cabelos molhados.

— Pelo menos oito. Desde a formatura, não é?


Sentaram-se à mesma mesa, trocando memórias como quem desenterra um tesouro esquecido. Ela falou da vida no mundo digital, das pressões constantes. Ele contou do hospital, das noites de plantão, das vidas salvas e também das que não conseguiu salvar.


— E nunca mais voltaste à tua terra? — perguntou ela.

— A medicina não deixa. O hospital é a minha casa agora… mas às vezes sinto que perdi algo importante. — Os olhos dele pousaram nos dela.


Clara sentiu o coração acelerar. Havia anos que ninguém a olhava assim: com verdade, com intensidade, como se a enxergasse além da fachada.


Quando se despediram, a chuva já tinha parado.

— Posso ligar-te? — perguntou Miguel, hesitante.

— Claro. Eu gostaria.


Clara caminhou até casa sem sentir o frio. No bolso, o telemóvel vibrava com mensagens, mas pela primeira vez em muito tempo ela não quis olhar. O que importava era outra coisa: aquele reencontro inesperado.


E no fundo do coração, uma pergunta que não se calava:

Será que o destino lhe estava a dar uma segunda oportunidade?




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